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CULTURA DE RUA: LIVRO NAVIO NEGREIRO GANHA NOVA ROUPAGEM

Sunday, May 15, 2011
Livro traz poema clássico de Castro Alves em versão atualizada pelo rapper Slim Rimografia

"Stamos em pleno mar...douto no espaço
Brinca o luar - doirada borboleta
E as vagas após eles correm... cansam
Como turba de infantes inquieta."
Assim começa O Navio Negreiro, um dos mais importantes entre todos os poemas épicos escritos em língua portuguesa. Criado por um jovem Castro Alves, de apenas 22 anos, o poema tornou-se o símbolo máximo da luta abolicionista no Brasil, retratando a infernal viagem dos escravos retirados de suas terras no continente africano e trazidos acorrentados ao nosso país nos porões dos grandes navios de transporte durante 400 anos. Através do talento do poeta brasileiro, a história dessas viagens ficou gravada para sempre na nossa literatura, em um texto que continua atual e contundente mesmo depois de quase 150 anos desde sua publicação.
Para marcar as comemorações do dia da libertação dos escravos, neste 13 de maio, a Panda BooksSlim Rimografia para um desafio literário: fazer um rap no molde do poema épico de Castro Alves, atualizando-o para aproximá-lo da linguagem urbana das gerações de hoje. O resultado foi a publicação dessa belíssima nova edição de O Navio Negreiro, que além de contar com o texto integral do poema de Castro Alves e a nova versão de Slim, ainda traz um ensaio do antropólogo e cientista político Dr. José Luís Solazzi e ilustrações fotografadas de grafittes do grupo Opni. convocou o rapper
"Primeiro de tudo, foi um desafio enorme fazer isso. Eu já era fã do poema, conhecia o trabalho do Castro Alves há bastante tempo e já admirava bastante. Foi uma oportunidade muito interessante", comentou o rapper Slim Rimografia em entrevista à Trip. "Querendo ou não, acho que o rap é a linguagem mais próxima do que ele fez. É o estilo de música que mais aborda esse tema. Foi muito bom poder fazer essa releitura, apesar da dificuldade."
 PANDA BOOKS DIVULGAÇÃO
Difícil também é medir o impacto das palavras do poeta nas pessoas que leem O Navio Negreiro pela primeira vez. A cada associação de imagens, a cada estrofe, a cada rima, a miséria desses homens e mulheres que passaram o resto da vida sendo tratados como mercadoria vai ganhando mais contornos. E é quase uma afronta quando você percebe que, mais de 120 anos depois da assinatura da Lei Áurea pela caneta "libertadora" da Princesa Isabel, o navio negreiro continua navegando. Se não literalmente cruzando os mares, com certeza refletido nas favelas, periferias, presídios e camburões dentro de nossas próprias cidades.
"Eu já ouvi a Dona Edith recitá-lo algumas vezes na Cooperifa, já vi ele aparecer algumas vezes em alguns sarais e a reação das pessoas é sempre interessante. Quando eu li a primeira vez eu achei incrível. É um poema muito bonito apesar de ser algo tão triste", continuou Slim.
Apesar de não se tratar de um livro juvenil, a versão da Panda Books para O Navio Negreiro é ideal para os adolescentes. Com diagramação moderna, belíssimos exemplos de street art ilustrando as páginas e a linguagem certeira tanto de Slim quanto do Dr. Solazzi, o livro une o útil ao agradável agregando ainda mais valor ao poema épico de Castro Alves. Aproximando a poesia de nossa realidade atual, o livro é um presentão para qualquer um que queira motivar um jovem a se interessar por poesia e, nas palvras do próprio Slim, pensar no "absurdo que é a normalidade com que as pessoas viam a escravidão."
Mesmo tendo escrito a mais bela e tocante obra brasileira acerca da escravidão, Castro Alves morreu sem ver a assinatura da Lei Áurea, ainda muito jovem, com apenas 24 anos de idade e vítima da tuberculose. Para Slim Rimografia, entretanto, ele não é o único abolicionista que deixa o mundo sem ver a sociedade livre da escravidão. 
"Hoje, a senzala só é mais longe das casa dos senhores. Está nas periferias, longe dos centros urbanos e dos mais ricos. O navio negreiro de hoje é o ônibus lotado de trabalhadores, na sua maioria afro-descendentes. É difícil acreditar no fiml da escravidão. Mas esse poema está aí pra isso: mostrar de uma maneira atual que o navio negreiro mudou de nome e virou o busão lotado."


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